Acordei cedo hoje. Deixei a indisposição dormindo com a preguiça em minha cama, tomei um banho gelado, passei direto pelo espelho. Fui organizar nossas fotografias. Aquelas que deixei no fundo da gaveta da cômoda velha no canto do quarto. Aquelas que escondi por medo de sofrer mais relembrando meu passado que acompanhava o teu quando, na verdade, sempre precisei apenas de respirar para que o nosso fim me incomodasse e me doesse. Não sei porque despejei as fotos no chão e comecei a olhar uma por uma sem chorar ou sorrir. Coloquei-as numa ordem cronológica meio bagunçada, então em álbuns antigos que estavam vazios. Fui à cozinha, tomei um gole d’água, me distraí com o beija-flor que visitava meu jardim e voltei para nossas recordações. Fiquei por quase cinco minutos olhando a pilha de álbuns mortos que descansavam na madeira do chão. Tive vontade de enterra-los ou queima-los, qualquer coisa que se faz com defuntos. Embalei-os numa caixa e os joguei na poeira do porão. Certifiquei-me umas três vezes que o porão estava bem trancado caso aquelas duas pessoas queiram se desprender das imagens e me atormentar. Queimar... Deveria tê-los queimado, acabado de mata-los.

     Mas não é por isso que te escrevo. Não é apenas pra contar o fim do romance dos nossos retratos.

     Um pouco mais tarde, passando pela porta do banheiro, tive vontade de me encarar no espelho para descobrir se ainda havia em mim traços de realidade. Fiquei com os olhos baixos nos primeiros minutos olhando para minhas mãos. Deus! Desde que paraste de vir em casa, não tive coragem de olhar para mim no espelho. Olhei-me de canto como se estivesse cometendo um erro grave. Então, fui permitindo que meu corpo ficasse reto, frente a mim. Como deixei tanto tempo passar? Como me deixei ficar assim? Estava tão presa às fotos que eu nem via que fazia delas a minha realidade. E prendi meu corpo numa casa suja e velha esperando que voltasses. Quanto da minha vida perdi na esperança de que irias juntar a tua com a minha outra vez? Quanto tempo estive sozinha entre paredes e sonhos rasgados esperando que deitasses na nossa cama para construirmos novos sonhos juntos? Por quanto tempo eu me perdi em e por você até que aparecessem esses sinais de cada segundo agoniado?

     Hoje, eu enterrei na “nossa” cama todas as marcas que a falta de tempo contigo e o exagero de tempo esperando-te criaram em mim. Nossas lembranças estão no porão. O espelho me acusa de ser tola por gastar o meu envelhecimento te esperando. E eu já não choro mais. Nem uma lágrima. Nem um flash. Nem um segundo por ti.