Ele chega atrasado, e eu tento disfarçar o meu desapontamento com ele. Nenhum abraço demorado, nenhum beijo surpreendente, e assim como ele não fala muito, eu também não. Ele fala sobre futebol para me irritar, e eu falo sobre novela para irritá-lo. A gente não conversa sobre sexo. A mão dele fica perto da minha, mas, não encosta, então eu também não encosto.Algumas vezes, as nossas diferenças parecem incomodar a nós dois. Ele senta-se à mesa ao lado da mulherada, e eu prefiro sentar na cadeira mais afastada delas. “Perdidos, nós dois, ele querendo ir para a cama, e eu querendo um espaço no sofá.” Como mulher, jamais poderia me permitir parecer vulnerável, e enquanto ele comenta sobre o corpo da Shakira, eu falo em como o meu vizinho é gostoso sem camiseta. Ele não sorri e eu continuo na mesma. O que eu esperava eram aquelas perguntas que toda mulher gosta de ouvir. “Você fez algo diferente no seu cabelo?’’ “Esta com frio?’’ “Posso ir aí?’’ Mas, com ele… Dele eu não esperei e nunca iria esperar algo do tipo. Ele fala sobre a viagem para Fortaleza e eu digo como vai ser o meu fim de semana com meus “amigos de Nova York.’’, ele olha com malícia e eu finjo não perceber. Então, a gente finalmente começa a falar de sexo. Ele comenta sobre os “joguinhos’’ e se gaba pelo número de mulheres que ele pegava antes de me conhecer. Para não ficar atrás, eu falo do amigo dele, do melhor amigo dele, e do melhor amigo do amigo dele. Sou mulher, e sei que isso irrita os homens. Depois de falar dos amigos, eu falo dos garotos da festa de aniversário na semana passada, e dos 5 que eu beijei nas duas semanas em que ele esteve fora. A noite parece até agitada, a gente disputando para ver quem é o melhor mentiroso. Tudo piora, quando ele fala da loira amiga da irmã dele. Como se eu não soubesse que ele gostava de loiras. Mas, o fato dele não perceber as mechas no meu cabelo, que a propósito eram loiras, me irrita ainda mais. Por mais que eu quisesse ele perto de mim, eu queria ele longe. “Nem é um encontro.’’ Eu dizia a mim mesma, e depois sorria para ele. Ele não pergunta nada, eu também não. E eu até poderia sugerir um filme ou qualquer outra coisa que não fosse ficarmos parados tentando nos enganar com aquilo. Mas, isso iria me deixar vulnerável, e eu devo ter esquecido de dizer que odeio me sentir vulnerável. Então, ele começa a falar sobre música, e começa a cantar alguns trechos das músicas mais bobas que eu pudera imaginar, mas, é só isso, então, eu apenas evito sorrir. Guardo o sorriso pra quando estiver em casa. Quanto tempo ele deve estar esperando para me chamar para sair outra vez? Chata do jeito que eu sou, talvez ele nunca chame. E para minha surpresa, ele não chama. Ele coloca as mãos no bolso e olha para as meninas atravessando a rua, enquanto eu observo o taxista de meia idade. E assim, a gente continua, sem nenhuma caminhada depois do jantar, sem nenhuma gargalhada, sem sexo, sem filme, sem nós. Só para não parecer vulnerável, eu entro no carro, e disfarço não olhar para o jeito torto dele caminhar em direção a um lugar que não era a casa dele. E lá estou eu, observando o meu celular, esperando por uma ligação, uma sms de “Foi uma noite legal.’’ Eu até digitei, já que ele estava demorando, mas, sabe como é mulher, não seria bom dar pinta de que eu estava pensando nele depois das 3 da madrugada. E desse jeito meio frio, a gente acaba sentindo falta da noite que nunca tivemos, ele é o amigo, dos meus ex namorados, e eu sou o “pior encontro dele.’’ E para não parecer vulnerável, eu ignoro ele no mercado, na igreja e em qualquer lugar. E lá se vai a minha chance de viver um amor de verdade. Mas, pelo menos, eu não pareci um elo fraco, o sexo frágil, ou aquela que se apaixona primeiro.