A lua é a mesma. As estrelas ainda estão pulsando em luz. O céu corre quando paro para observá-lo. Ainda há frio; e calor. Nada mudou, exceto nós. E por essa mudança dramática que fere a vida premeditada do nosso amor, te escrevo este pouco de palavras. Não há mais saudade. Acostumei-me com o vazio constante em tudo que faz parte da rotina. Fiz da solidão uma amiga. Virei o teu retrato para a parede por um tempo. Hoje, consigo encará-lo sem sentir dor, ódio ou falta. Simplesmente não sinto. Nada. Ainda carrego muito de ti em mim, mas abafo, escondo; vez ou outra, permito que me esvazie um pouco te deixando escorrer pelos olhos, sem dizer nada, sem sofrer. Apenas sento-me no canto do quarto revirado por todas as minhas lembranças que te acolhem e me deixo livre de mais um pouco de ti. Livre. Liberdade. Sorrio ao pensar na possibilidade de me livrar deste nada em que me transformaste. Libertar-me deste nada de nós que me enlouquece todos os dias sem que eu desprenda meus pés do chão ou leve a mente para longe do corpo. É uma loucura segura. A dor não sentida de tudo o que vivemos e deixamos de viver. A espera interrompida da realização de todos os sonhos desfeitos. Eu choro por tudo o que fomos e seríamos juntos. Nada mudou, exceto nós.
— É possível mudar tanto ao ponto de não se conhecer e não saber o que move suas atitudes?
— Claro! Aconteceu comigo.
Sorri. Eu já sabia qual seria a resposta antes de perguntar.